domingo, 2 de maio de 2010

Dias da mãe é quando um filho quer

Maiiiim!!

Gosto de ti a pendurar cortinados. Escadote acima, escadote abaixo. Estica o braço, estica o pano, corre o pano.
E a chinelar pelo corredor. Treca treca treca. "Ó Paulo!", treca treca, e lá passa mais uma peça de roupa, e lá arruma uma ou outra coisa, ou muda-lhe o sítio para arrumar mais tarde.
E eu, suspensa na minha quietude, lá andava atrás de ti ou contigo, no teu treca treca treca de todos os dias.
Não me falaste muito do teu treca treca culinário, mas aposto que ainda fizeste uns quilómetros comigo na cozinha. Esse teu livro de culinária, amarelo e consumido pelo tempo, já me é familiar há muitos anos. Acho que te dei uma ajuda a recortar as receitas das revistas!
Andávamos floridas e vaporosas com aqueles vestidinhos frescos e práticas de sapatos baixinhos. Nunca fomos muito de saltos altos, é de família! O pai diz que eras a grávida mais bonita lá do sítio! Claro que sim! A tua permanente volumosa ao vento fazia inveja a qualquer alminha gestante!
Mas o melhor momento do dia era quando nos traziam aqueles alguidares de laranjas. E então sentava-mo-nos de pernas abertas a devorar laranjas nas escadas. Gulosas!
Gostava quando me passavas a mão pelo pêlo, quando me besuntavas de creme para as estrias e dava cambalhotas de felicidade por não usares cintas! Como tu, também não gosto muito de apertos!
Lá dei mais uma cambalhota, uns pontapézitos meigos, e meti-me a jeito da porta de saída, que nove meses, e sendo muito tua filha, é demais para estar parada.
E acabei por sair, depois de me tocarem na cabeça umas 15 vezes, primeiro o médico, depois o interno, depois o aluno do 6º, 5º e 4º ano, isto umas duas ou três vezes, enquanto eu rejubilava no meio de hormonas e prostaglandinas, impaciente às cabeçadas durante quatro horas.
Lá te vi mais agitada que o normal. Deve doer, mas obrigadinho pela força! E foi roxinha que vim ao mundo, pelo que dizes. Nem chorei, nem esperneei e nem parece isso coisa minha! Pelo que consta nem tivemos muito tempo para olharmos uma para a outra. Fugiram comigo e fecharam-me numa caixa transparente, longe de ti e do pai, sem laranjas, sem treca treca e sem "Ó Paulo"! Acho que ficaste preocupada mas eu estava "na boa"! Dois meses depois andava de fato-de-banho, de colo em colo, em plena praia da Nazaré, olé!

Depois desta vivência tão agitada, seria impossível não ser como tu! Continuo a gostar do treca treca treca, jardim acima, jardim abaixo, do "Ó Paulo", do cheirinho na cozinha, das coisas gulosas, de me passares a mão pelo pêlo! Principalmente a última parte!

Dias da mãe é quando um filho quer!

4 comentários:

Helena disse...

oh ana catarina... já te tenho aqui nos meus "Favoritos".

Escreves mesmo bem.. opah!
treca treca trreca, há que mimar as santas mãezinhas todos os dias.

Anónimo disse...

Um pelinho tão bom, umas dentadinhas babadas... que bom.
Ser mãe é uma recordação constante:
Recodar que quase ficava careca de tanto ser penteada, de como ficava bela depois da sessão de maquilhagem, dos dedos pintados quando era suposto serem só as unhas, do "não podes tirar o verniz, tá bem mãe", dos cozinhados maravilhosos feitos a três e comidos a quatro no Quatro Patas, do famoso dia de limpeza, o sábado, mangueira na mão, turbante na cabeça, espanador em marcha, uma verdadeira batalha naval, só faltavam os barcos, água havia muitaaaa!
..."É sua irmã?
Somos irmãs, não somos mãe!
Ser mãe, é ser é estar eternamente grata.

Beijoca babada.

srosa disse...

uau, ate tenho pejo de entrar nesta deliciosa troca de carinhos, mas so para dizer que andas mesmo afectada pela obstetricia...prostaglandinas da cabo de qq um... beijos

Eu disse...

Afectada é pouco!! Isto bateu-me forte!!

E ainda bate, durante mais uma semana, pelo menos! :X

Beijota!! Boa estuda!!