
"Morreu a vinte e oito". Deambulava eu e mais uns quantos parecidos comigo: caderno na mão, bata, estetoscópio orgulhosamente pendurado ao pescoço (é por essas e por outras que enterro o meu no fundo do bolso. Estereótipos!), ténis da moda (e por esta "outra" aderi à moda hospitalar das Crocs. Rosa-florescente, claro está, também não vamos abusar!), pastilha elástica_ aquelas coisas que nos identificam como "alunos" e que acabamos por mascarar com "sou um médico novo no serviço, vejam como sou sério, colaborem lá e dêem uma boa história".
Não sei se eles se aperceberam. Eu é que acho que já topo estas situações por instinto. Até podia nem haver gente a chorar ao lado. Até o filho da senhora podia não ter gritado no corredor. Até a interna podia não ter dito que a "vinte e oito" estava a morrer. Realmente havia uma tensão estranha, um silêncio surdo que já conheço. Devo mesmo ter prolongado aqueles segundos durante muito tempo em mim.
É que a morte...tem fases, cores, estados de espírito, texturas. Ela instala-se, sofre metamorfoses, camufla-se. É, por ordem: incrédula, revoltada, vazia, pessimista, inconformada mas serena, conformada mas não serena, optimista e confiante. É de metal frio, de espelho, de...ranho!, de cristal, de cobre, moldável e dúctil. Vestiu-me de ganga escura + branco, de branco + branco, de cor + branco, só de cor (também escondi o preto no fundo do bolso, como faço com o estetoscópio).
E ver isto tudo a acontecer ali ao pé...mais a dissertação do professor acerca de fragilidade vascular, mais uma aula de reanimação...vão-se lixar! Ou melhor, estou eu toda lixada. Mas...coisas da vida. Corre, a gaja. Não pára! Ver se a apanho um dia. Por enquanto, reservo-me à minha indiferença. Devo ter esgotado os sentidos por aí.
Voltando à vinte e oito, tratei de espreitar para o espacinho dela no quadro da sala dos enfermeiros. Senhora de 73 anos com diabetes descompensada. Na altura ocorreu-me que Deus havia de estar a fazer a sua nota de entrada...e que 73 anos não é idade para altas celestiais. Naquele sítio, onde as alminhas se destacam dos corpos todos os dias, já estaria de certeza alguém a tratar de uma nova entrada para a cama vinte e oito. E foi mesmo. Na sala dos enfermeiros o processo da 28 hoje não era o mesmo e no espacinho no quadro estava uma senhora diferente. Não pára, a vida. Apanhem-na!
E hoje foi giro. "É aluna, não é? Boa sorte para o seu curso!". Claro que foi das Crocs rosa-florescente! Realmente não deve haver mais motivo nenhum para desconfiarem que não sou mesmo médica!!!