terça-feira, 15 de abril de 2008

Jardinar ideias


Agora que o tempo está propício, é altura de jardinar. O sol estica os primeiros raios e as nuvens escondem uma ou outra lágrima (de felicidade, porque não queremos pensar em coisas más). Lisboa é uma pequena estufinha, cheia de tulipas encarnadas que desabrocham pelas ruas (no sentido gracioso) e os narcisos apenas dão fé de si, na sua mania narcisista (não apitam nem berram, dão simplesmente fé de si). Este clima ameno e ligeiramente bafiento (ninguém falou em efeito de estufa) e este UV-Cêzinho manhoso não me depelou, apenas provocou uma ligeira descamação da pele, isso a que chamam epitélio estratificado pavimentoso queratinizado lá há-de ser um nome bonito ou um elogio na língua de quem o inventou.

Fiz uma covinha na terra e lancei a semente. Cheira a chuva, a Inverno, mas hão-de vir aí dias amenos_ a bonança após a tempestade! E como cada um colhe o que semeia, a minha semente é das melhores. Nem uma brisa aqui passou, porque quem semeia ventos colhe tempestades, e se por acaso tivesse passado teria sido eu própria a ampará-la com a vida.
Depois o adubo orgânico, vulgo esterco (palavra agressiva para coisa tão singela), e tapa-se com terra outra vez. E aqui entram duas teorias distintas_ o regar ou o não regar. Regar porque é água e a água faz bem e o não regar porque iria humedecer a semente e isso ia aprodecê-la. Não reguei. Sou uma jardineira a sério.

E depois esperei. Todos os dias visitava a semente e lá depositava mais uma ou outra gota de amor, que lá havia de fazer alguma coisa aos cotilédonos. Além disso, amor é rico em proteína e noutras coisas boas que dão saúde. Mal não lhe há-de fazer de certeza!

E assim se semeiam ideias. Nem sempre germinam, nem sempre brotam com a mesma força, nem sempre desabrocham graciosamente cheias de cores. E que ideia melhor do que descrever a procura incessante de ideias enquanto não vem nenhuma? É uma alegoria interminável que muitos outros já fizeram, semelhante à caneta que teima em não escrever, à palavra que teima em não sair, ao orgulho-me dos meus dedos hoje serem chouriços teimosos que outros que se auto-intitulam escritores já relataram.

Mas eu não sou escritora nem nada que se pareça. Sou uma humilde jardineira que acabou, a meio da noite, de colher uma ideia-tipo-cenoura (só se vê rama, não se vê o que se come nem se sabe se é bom), num enregelado calçar botim e vestir casaco de quem procura algo, piscando os olhos e adivinhando as coisas entre o negro cru do quintal.

E esta é uma grande e amorosa alegoria feminina, com muito mais verdade e lógica do que se retira numa primeira leitura. É bonito usar saltos altos, ter o humor subordinado à sigla TPM e usar soutien. Soutien de soutenir, aquele verbo que rima com descair daqui a uns anos. Fantástico! Se a vida fosse um jardim (porque definitivamente e fora de brincadeiras não é) nós seríamos as flores mais bonitas do canteiro.

2 comentários:

rm disse...

Gostei essencialmente dos chouriços teimosos. Mas verdade seje dita já os admiro há mt tempo.
Dá fogo a esses chouriços, mas não os deixe esturricar.
Bela semente da vida de petálas brilhantes e resistentes produto do melhor "esterco".

carô disse...

É tão bom, sentir o teu escrever.

Porque agora parece que estou a sentir a sementinha a germinar e a esticar os bracinhos para o sol, como quem diz

Olá Sol, que eu sou uma semente tão bonita, tão bem tratada pela Catarina!

Parece eu que estou a imaginar o Terreiro do Paço cheio das tuas tulipas e penso,

Bolas, é tão bom ser pessoa.

Eu conheço-te há tão pouco, mas sinto-me tão feliz por te conhecer!

Podia estar aqui toda a noite a ousar comentários a este teu texto(não que se possa roubar a magia ao que escreves, mas às vezes tem-se medo de sujá-lo com pseudo-interpretações), mas quero ir para o meu terraço apanhar chuva e acabar de senti-lo.

(neste momento, sinto o cheirinho da terra molhada! e depois vem a alegria das tulipas de Lisboa!e depois as minhas ideias a "jardinar" graças ao adubo das tuas ideias!)

Não se encontram facilmente textos para sentir.

Muito menos pessoas para os escrever.